Investimentos

Tesouro Selic é risco zero. Os quatro títulos que formam ele dizem outra coisa.

Se risco zero existisse de verdade, por que os quatro Tesouro Selic do Tesouro Direto pagam taxas diferentes pelo mesmo "sem risco"?

Tesouro Selic é risco zero. Os quatro títulos que formam ele dizem outra coisa.

Risco zero não existe. Nem no investimento mais seguro do Brasil.

É isso que todo mundo repete sobre o Tesouro Selic: seguro, líquido, “sem risco”. A frase virou clichê de consultor, de vídeo de YouTube, de post de Instagram.

Só que tem um problema. Abre o Tesouro Direto agora e você vai encontrar quatro títulos chamados “Tesouro Selic” — e cada um paga uma taxa diferente.

A prova que ninguém mostra na propaganda

O Tesouro Selic 2027 paga Selic + 0% ao ano. O Tesouro Selic 2028 paga Selic + 0,01%.

O Tesouro Selic 2029 paga Selic + 0,03%. E o Tesouro Selic 2031 paga Selic + 0,07%.

Mesmo emissor. Mesma garantia. Mesma Selic de referência, hoje em 14% ao ano.

Se fosse risco zero de verdade, os quatro valeriam exatamente a mesma coisa. Não valem.

O que a diferença de 0,07% está te dizendo

Cada título tem uma data de vencimento diferente — 2027, 2028, 2029, 2031. Quanto mais longe o vencimento, maior a taxa.

Isso não é acaso. É preço de mercado embutido no PU de compra: R$ 19.803,55 no título de 2027, R$ 19.790,60 no de 2029, R$ 19.739,36 no de 2031.

É a mesma lógica que aparece quando você decide onde deixar a reserva de emergência: o preço de mercado nunca some, só fica escondido atrás da palavra “seguro”.

Mas tem um detalhe que a propaganda de “risco zero” nunca menciona: esse PU se mexe todo santo dia, pra cima e pra baixo, enquanto o título não vence.

O mecanismo: por que o preço balança se a taxa é “garantida”

A garantia do Tesouro Selic vale pro dia do vencimento. Até lá, quem quer vender o título antes da hora vende pelo preço que o mercado está pagando naquele momento — e esse preço reflete a expectativa de juros futuros, não a Selic de hoje.

É o mesmo motivo pelo qual o Ibovespa subiu 3,05% num pregão só: preço de ativo financeiro se move com expectativa, não fica parado esperando o vencimento.

O Tesouro Selic se move muito menos que o Ibovespa — é por isso que ele é chamado de “quase sem risco”. Mas “quase” e “zero” são coisas diferentes.

Se você já comparou Tesouro Direto com CDB, viu esse mesmo movimento de preço aparecer do outro lado do balcão.

E se você segurar até o fim?

Aí sim a conversa muda. Quem compra Tesouro Selic e segura até o vencimento recebe a taxa contratada, sem depender do preço de venda no meio do caminho.

R$ 1.000 aplicados a 14% ao ano por 5 anos viram R$ 1.925,41 brutos. Depois de descontado o Imposto de Renda de 15% — a alíquota de quem fica mais de 720 dias aplicado — esse mesmo dinheiro vira R$ 1.786,60 líquidos.

Esse número não tem “quase” nele. É o que o contrato promete e é o que cai na conta, se você não mexer antes da hora.

”Mas é garantido pelo Tesouro Nacional — isso não é risco zero?”

É a objeção mais comum, e tem uma parte de verdade. O risco de calote do governo brasileiro em título público federal é o menor risco de crédito que existe no país — o parâmetro que todo o resto do mercado usa pra se comparar.

Só que risco de crédito não é o único risco que existe. Risco de preço — o que você recebe se precisar vender antes do vencimento — é real, é mensurável, e é exatamente o que os quatro Tesouro Selic com taxas diferentes estão mostrando.

Chamar isso de “risco zero” não é mentira grosseira. Mas é a simplificação que faz o trabalho do vilão de sempre: o jargão financeiro que existe pra te excluir, não pra te explicar.

A única pergunta que decide se o preço importa pra você

Se você vai precisar do dinheiro antes do vencimento, o preço pode balançar contra você — pouco, mas pode. Se você vai segurar até o fim, a única coisa que importa é a taxa contratada e o tempo.

Antes de escolher qual Tesouro Selic comprar — ou olhar prazos diferentes lado a lado — compara as opções no comparador de Tesouro Direto.

Selic, taxas dos títulos do Tesouro Selic (PU de compra) e variação do Ibovespa segundo o Banco Central e a B3, base de 02/09/2026. Conteúdo educacional — não é recomendação de investimento.

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